Ao tirar o telefone do gancho você ouve aquele som ininterrupto e incômodo.
Como se aquele som aguardasse sua ordem, sua lamúria, seu afeto e desafeto. Sua súplica, seu perdão, ou suas juras de amor.
Isso acontece o tempo todo.
O som.
As súplicas.
E também juras de amor.
Verdades inquestionáveis.
Para onde quer que olhemos vemos atividade constante. Atividade de uma carcaça que já foi um ser em algum momento da existência. Um ser que não tinha tantas convicções.
Convicções que ferem, que matam e nos fazem fugir, negar e justificar atos já consumados.
Lá onde todos parecemos não estar, na realidade plena e inquestionável, não existe erro ou acerto. Existe Agora e Fim.
Lá, onde tantos justificam com desculpas ou velhas escrituras sagradas desbotadas, não há nada mais que a certeza de que a carne sangra e o homem padece.
Aqui, nesse simulacro de aspirações e solidão, você se veste com uma carapuça rota. Você não passa de um espectro deslizando em direção à vala comum dos saberes conhecidos.
Aqui, você se entrechoca com outros tão cheios de si quanto você. Lá, você divide o espaço com outros seres iguais a você.
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Ultimamente tenho visto o mundo de uma forma peculiar. Aliás, um pouco mais peculiar que de costume.
Nas inúmeras vezes que saio de casa, cercado por uma redoma de vidro e rotina, capto as coisas de forma diferente. Como se eu já percebesse tudo aquilo, mas só agora pudesse transformar os carros, as pessoas e as ruas em palavras e frases inteiras.
Quem sabe isso venha a se tornar arte um dia...
Quem sabe?! Só eu sei.
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