domingo, 30 de agosto de 2009

O bicho da garrafa ou O medo da vida


O recipiente verde, vítreo e inerte acumulava pó há tempos. Ganhara aquilo aos doze e hoje tinha quinze. Nunca o abrira, pois sabia que de nada servia.
Era de fora, do mundo e, portanto, merecia uma estante na casa. Era uma relíquia, um presente que a vida havia lhe dado. Um souvenir da curta estrada de um jovem que desejava ser ébrio.

Num dia qualquer de curtição com amigos, já querendo estar embriagado e querendo extravasar essa tal embriaguez, empunhou a garrafa numa mão, enquanto a abria com a outra. Num movimento rápido e tonto, fingiu beber o líquido imaginário que antes fora uma cerveja... Goles e mais goles da bebida do fruto da mente...
Porém, qual não foi sua surpresa, senão um gosto amargo, horrível, nunca antes experimentado?

Caiu no chão de desgosto, cuspindo tudo e cuspindo fogo, xingando o mundo e sentindo-se tolo.
Recuperou-se entre ânsias e olhou para dentro. Admirou-se quando viu, meio a contragosto, o ser que lá dentro vivia. Um fungo, uma bactéria? Algo asqueroso, por certo.
Mas mais asqueroso que ele, esse calhorda infeliz, não era.

Deitou-se no chão, encolhido.
Doeu-lhe a alma e a cabeça, mas não... Não era ressaca. Era vergonha.

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