Bukão mirou-se no espelho. Viu um emaranhado de barba, olheiras e rugas.
Lavou o rosto e nada mudou. Pensou que tal costume era bobo e não despertava. Não sorriu como de costume. Não se divertiu com sua típica acidez. Pelo contrário.
O semblante fechou: percebeu que a vida não era, nunca foi, jamais seria - e seu reflexo era a prova disso - leve.
A vida era curta, sim. Mas levá-la numa boa não era necessariamente uma boa dica. Se ela era curta, não seria bom, então, levá-la a sério?!
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
O silêncio arraigado
Bukão fumava. E fumava um cigarro atrás do outro.
Tirava seus "amigos" - como ele próprio chamava os cigarros - do maço e consumia-os, reduzia-os e eles desapareciam. Como os amigos que já tivera, aliás.
Não! Ainda tinha amigos. Só não sabia seus nomes. Desesperou-se. Como ele, eles não têm nome, não têm companhia, e são desiludidos errantes inveterados, como pipas presas nos fios: já voaram, mas agora apodrecem presos ao próprio fim.
A questão não é a velhice em si, mas a desistência, a aceitação da mágoa. Nem todos se livraram da angústia de não superar as malditas promessas da juventude, pensou Bukão.
Até que, por um instante, silêncio. Não pensou mais em dor e mágoa. Levantou-se, ligou o rádio e uma antiga canção encheu a sala.
Música e mágoas antigas, então, atrelaram-se. Bukão sorriu, como de praxe. Ria sempre da desgraça e da perdição. Rir fazia-o sentir-se vivo.
Era doce o gosto da solidão. Era solene aquela velha canção.
domingo, 25 de abril de 2010
Bukão nunca mais outra vez
Cansado há tanto tempo, ele se cansou até mesmo do cansaço.
Olhou em volta, viu o pequeno caos - a maneira mais organizada de viver sendo ele mesmo -,vestiu-se e nunca mais, naquele dia, foi o mesmo.
Às vezes, algo de muito bom nascia nestes seus rompantes. Mas somente às vezes.
Outro dia fez isso outra vez, mas nada mudou também.
Até que se cansou de se cansar do cansaço e não mais teve rompantes. Nunca mais, num ínterim, mudou momentaneamente as coisas. Passou a ser um só. E, sendo um só, aprendeu a viver só - e melhor do que nunca.
Estava velho e semimorto, mas não enraizado. Se para ele ser idoso era como ser um anjo caído, era melhor se ver caindo, mas ainda andando. Andando para, enfim, cair morto onde quiser.
E, assim, nunca mais precisou rebelar-se contra si mesmo.
Olhou em volta, viu o pequeno caos - a maneira mais organizada de viver sendo ele mesmo -,vestiu-se e nunca mais, naquele dia, foi o mesmo.
Às vezes, algo de muito bom nascia nestes seus rompantes. Mas somente às vezes.
Outro dia fez isso outra vez, mas nada mudou também.
Até que se cansou de se cansar do cansaço e não mais teve rompantes. Nunca mais, num ínterim, mudou momentaneamente as coisas. Passou a ser um só. E, sendo um só, aprendeu a viver só - e melhor do que nunca.
Estava velho e semimorto, mas não enraizado. Se para ele ser idoso era como ser um anjo caído, era melhor se ver caindo, mas ainda andando. Andando para, enfim, cair morto onde quiser.
E, assim, nunca mais precisou rebelar-se contra si mesmo.
terça-feira, 16 de março de 2010
Bukão e o tempo que vou dar com o blog
Até mesmo no canto mais desprezível há uma ordem, uma lógica.
Bukão sabia que, apesar de viver no extremo da existência, - quase na inexistência, na verdade -, ele precisava sempre dar um tempo e reorganizar as coisas. Eram tais momentos de concentração que o mantinham vivo.
Assim, sempre que sente necessidade, parte. Deixa de ir ao botequim da esquina e fica recluso. Purifica-se, já que até mesmo o mais sujo e moribundo ser precisa enxergar ordem na sua própria bagunça.
Assim estou eu , meus caros! O blog, no entanto, não acabará. Na verdade, tenho bons planos para ele.
Não sei quando volto, mas o que estarei fazendo longe daqui é importante. Tão importante que poderá mudar até mesmo este espaço sobre o qual escrevo. Ou seja, me ausento não só por mim, mas também pelo blog.
É preciso parar para continuar.
Bukão sabia que, apesar de viver no extremo da existência, - quase na inexistência, na verdade -, ele precisava sempre dar um tempo e reorganizar as coisas. Eram tais momentos de concentração que o mantinham vivo.
Assim, sempre que sente necessidade, parte. Deixa de ir ao botequim da esquina e fica recluso. Purifica-se, já que até mesmo o mais sujo e moribundo ser precisa enxergar ordem na sua própria bagunça.
Assim estou eu , meus caros! O blog, no entanto, não acabará. Na verdade, tenho bons planos para ele.
Não sei quando volto, mas o que estarei fazendo longe daqui é importante. Tão importante que poderá mudar até mesmo este espaço sobre o qual escrevo. Ou seja, me ausento não só por mim, mas também pelo blog.
É preciso parar para continuar.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
A aposta do apóstata

Deitou-se na cama a esperar a chegada dele - ou d'Ele para alguns - sentindo-se exausto, com as pálpebras pesando quinze toneladas cada. Apurou os sentidos e nada. Somente o tráfego.
Mas, apesar de saber que tal momento logo acabaria, insistiu. Afinal, estava bêbado e essa sua embriaguez era simbolismo puro. E do mais bruto significado.
Sempre fora ateu e sempre ouvira de todos que um dia sua fé viria. Ele, então, esperou. Não aguentando a espera, viveu sua vida e apostou no cavalo que estava dando certo: o ateísmo. Apostou contra a metade da humanidade e, por enquanto, estava ganhando.
A questão, porém, é que já estava no que muitos chamam fim da vida e, assim, começou a dar uma chance aos adversários sempre que bebia. Bem, e como se sabe, enchia a cara com frequência. Era um ritual necessário justamente por ser inevitável. E era isso que fazia agora, estirado.
Passados minutos sem aparições ou sermões divinos ele adormeceu e depois sonhou.
No etéreo ébrio lá estava ele exatamente como agora. Frágil, querendo talvez um cantinho mais aquecido no mundo dos velhos rabugentos - porque todo velho rabugento tem a igreja para re recostar -, mas teimoso demais para abandonar-se assim, ao léu. Ou melhor, ao céu.
No sonho, no entanto, apesar de estar bêbado, acorda. Em seguida levanta-se, pega um punhal e fere os dois pulsos. O sangue, então, desce. Mas não chega a sujar o chão, pois logo estava ele deitado outra vez. Agora, de verdade.
Sendo tão antinatural, anticasual, ou anticonvencional, sempre achara o suicídio uma bela forma de morte. Talvez uma maneira de dizer com estilo que discorda de tudo e todos. Mas será que valeria a pena ser tão covarde a ponto de desistir? Quer dizer, será que compensava ter tanta coragem para ser tão covarde?
As perguntas, porém, não foram respondidas. Bukão já estava rindo outra vez. Rindo por saber que, se fosse se matar, não seria cortando os pulsos e perdendo a chance de empunhar um copo repleto de álcool e fazer um belo e descarado brinde à vitória antes de morrer.
Sabia, apesar de tudo, que ganharia a aposta.
A aposta do apóstata
Deitou-se na cama a esperar a chegada dele - ou d'Eele para alguns - sentindo-se exausto, com a pálpebras pesando quinze toneladas cada. Apurou os sentidos e nada. Somente o tráfego.
Mas, apesar de saber que tal momento logo acabaria, insistiu. Afinal, estav bêbado e essa sua embriaguez era simbolismo puro. E do mais bruto significado.
Mas, apesar de saber que tal momento logo acabaria, insistiu. Afinal, estav bêbado e essa sua embriaguez era simbolismo puro. E do mais bruto significado.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Seus olhos coçavam. Malditos! Talvez estivessem cansados querendo pular fora daquela cabeça ignóbil. É. E talvez ele os deixasse cair.
Poderia deixar de ver a bobagem presente em toda parte e usar as órbitas como bolas de gude e apostar a sua vida trivial no jogo. Ou não.
Na verdade, tudo o que ele fazia era se coçar, encher e esvaziar os pulmões e esperar - sem saber exatamente o quê.
Poderia deixar de ver a bobagem presente em toda parte e usar as órbitas como bolas de gude e apostar a sua vida trivial no jogo. Ou não.
Na verdade, tudo o que ele fazia era se coçar, encher e esvaziar os pulmões e esperar - sem saber exatamente o quê.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Bukão e o outro lado

Redentor soberano do mais profundo vilipêndio, Bukão sentia-se o observador mais atento da instituições inquestionáveis da vida. Detestava religião, governo e tudo o mais que se incrustava no mais alto patamar da vida humana.
Frequentava um bar mal frequentado - instalado numa esquina não tão imunda como seus transeuntes - e isso bastava para ele.
A visão de quem se encarrapitava nos altos bancos do boteco, porém, não poderia ser mais ironicamente pitoresca: uma igreja. E uma igreja muito famosa entre os bons fieis da cidade. Casamentos mil eram celebrados ali.
Em dias assim, o habitat natural de homens corroídos pelo tempo tornava-se , por vezes, um espécie de arquibancada com vista privilegiada para a saída repleta de arroz. Uns sorriam e batiam palmas como se fossem convidados. Outros apenas olhavam - sem ver de fato, pois talvez olhassem para si mesmos e suas lembranças alegres e dolorosas.
Bukão, no entanto, fitava incrédulo de dentro do bar o casal feliz do outro lado da rua. Via-os sorrindo e acenando para seus parentes e amigos.
Queria ter o poder de decretar o jus primae noctis para destruir a ideia de união eterna em prol do amor puro e verdadeiro.
Queria mostrar aos jovens ingênuos o gosto amargo de que era feita a sua vida. Queria enchê-los não de arroz, mas de rancor e remorso por serem tão tolos.
Mas, não.
Ao invés disso, brindava-os e bebia infindáveis doses até adormecer no balcão e esquecer que um dia ele esteve lá, do outro lado - feliz, sóbrio e coberto de arroz.
sábado, 12 de dezembro de 2009

Tomou o jornal da mão do amigo e leu o anúncio de mais um stand up que seria apresentado na cidade. Pigarreou, irritado. Afinal, quem paga para rir? E de algo tão repetitivo?!
Estava velho, cheio de rancor e arrependimentos e detestava qualquer onda que surgisse. Tudo era melhor quando ele era mais jovem.
Para ele, humor era consequência de histórias acumuladas, mentes descontraídas criadoras de ditados e piadelas sagazes. Não essa balbúrdia mercadológica!
Pensou, então, de forma implicante, num motivo para sorrir. Percebeu, no mesmo instante, que não ria há tempos. Lembrando disso, gargalhou. Afinal, era bom demais rir da própria desgraça ao invés de rir da desgraça alheia contemporânea!
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